CABO PAULINO : um conto para o seu final de semana

Posted On 22 de janeiro de 2011

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CABO   PAULINO

 

Ao meu tio-avô que viveu esta história na cidade de Visconde do Rio Branco na Zona da Mata Mineira no início do século XX.

–          “Olha, Dona Alzira!  Lá vem o  Cabo Paulino.  Pode olhar no relógio que são cinco horas .  Ele não atrasa”, disse Maria, a empregada, para sua patroa.

As duas mulheres olharam o relógio e, de fato, eram cinco horas. Há anos ele mantinha aquela rotina e a empregada já criara o hábito de também vir olhar, da janela, a passagem do Cabo Paulino.  Em Serrana,  era comum ficar na janela e ver quem ia e vinha.  Incontinenti, as duas mulheres foram até a varanda e  Cabo Paulino passou, tirando, respeitosamente, o chapéu para cumprimentá-las. E lá foi ele, nos seus passos miúdos de setuagenário, apoiado no guarda- chuva que usava, fizesse sol ou chuva e que já fazia parte de sua pessoa, como o punhal que trazia sob o paletó.

Daí  a uns dez minutos, passou pela Praça da Matriz e foi chegando à Praça da Estação.  A primeira coisa que foi saber com o agente é se o Expresso estava na hora.  Ficou satisfeito, pois ele chegaria às cinco e quarenta e cinco em ponto.  Naqueles anos da ditadura de Vargas , os trens andavam numa pontualidade britânica.  Cabo Paulino subiu na plataforma e encontrou dois velhos colegas de farda, ainda dos tempos em que pertenceu à Polícia Mineira. Em Serrana fora chefe do destacamento local.  Eles estavam na reserva, como ele, e iam tomar o Expresso para Ponte Nova.  Começaram a reviver o passado e a lamentar o presente.  Um dos praças comentou: “Se Serrana tivesse, hoje, um chefe de destacamento como o senhor, não teria tanto bandido solto pelas ruas”.Cabo Paulino, com um sorriso na boca, comentou: “É a política, camarada.  Quando estava na ativa,  o Senhor se lembra que ladrãozinho a gente tratava com um purgante de sal de Glauber e soltava na estrada de Guiricema. Ele se borrava todo e aqui não voltava mais.(risos) Em  ladrão mais perigoso  aplicava-se  um corretivo com uma boa muxinga, mas tratava-se depois   com água e sal.  Curado, tomava rumo e aqui não punha mais os pés.  Na minha chave, só ficavam mesmo os assassinos.  Estes eram julgados. Hoje, Serrana está cheia de advogados e o nosso pessoal não pode mais dar este tratamento.”

Os dois praças soltaram boas risadas e o mais velho tirou do bolso um maço de cigarros Yolanda 500, escolheu  um cigarro , que, primeiro cheirou e depois  acendeu com uma binga, dando  uma boa tragada. Sabia que Cabo Paulino não fumava e nem bebia, e, por isto, nem sequer lhe ofereceu um cigarro.   A plataforma ia enchendo de gente.  Alguns meninos vendiam algodão- doce bolo de arroz, pirulito e broa de fubá.   Cabo Paulino era metódico e nada disto comia.  Gostava mesmo era de olhar as pessoas.  Um hábito que havia adquirido na sua vida de praça; o de perscrutar as fisionomias para ver se havia algum malfeitor. Depois de algumas baforadas, o praça perguntou-lhe: “Cabo Paulino, se não molesto o Senhor, poderia nos contar como foi mesmo o seu encontro com Zé Vicente no ano de 1915? Eu soube que na Nova Capital de Minas tem cantador que já canta até esta história, porque o famoso Miguel Versejador compôs um cordel em homenagem ao Senhor.”

–          Desconheço, respondeu, meio secamente, o cabo.  Depois de ajeitar o chapéu e

olhar à sua volta, Cabo Paulino resolveu contar para os dois soldados o que havia acontecido.  “Foi assim, ”  começou.

Eu havia prendido o Gervásio Olho de Boi, um dos capangas do Zé Vicente, e que já contava com mais de sete mortes nas costas.  Era um homem mau e, como seu chefe, só matava a traição.  Fiz uma campana na Fazenda da Capoeirinha e, depois de três dias,  prendi o Olho de Boi quando saia para ir beber na venda do Chico Bolão.  Veio que veio chorando como um xibungo,  temendo o corretivo que lhe aplicaria.  Mas eu não tratava os assassinos com corretivos.  Esperava a pena da Justiça e que eles apodrecessem na cadeia.

Logo que Zé Vicente soube da prisão, ameaçou a todos e mandou um recado, por escrito –  consta  nos autos do processo  – que, na quinta-feira, 12 de agosto de 1915, ia invadir minha cadeia para soltar o Gervásio. Só não disse a hora.   Se eu e o praça que estava comigo desejássemos viver que abandonássemos a cadeia..  Não me intimidei.  A cadeia ficava no alto da Praça da Matriz e eu podia ver quem viesse da Praça.  Fiz uma barricada com o praça Donato e lhe disse que íamos esperar o valentão.  Carregamos o nosso fuzil USM1903 e ficamos de guarda. Naquele dia, o comércio da Praça não funcionou.  Era aquele deserto de gente que parecia até um feriado.  O dia foi passando e nada do bandido aparecer.  Ele era mais tinhoso que o rabudo.  Mas logo percebi a sua armação.  Ia subir a rua do Quebra quando a noite caísse e nós não o enxergássemos  para fazer uma boa mira. Acalmei o praça e ficamos atentos com o dedo no gatilho.  Depois da ave-maria, já estava escuro.  Foi naquela hora que ele começou a subir a rua em nossa direção.  Vinha armado até os dentes, mas sozinho.  Era mais uma sombra que uma pessoa.  Falei com o Donato que nós íamos disparar ao mesmo tempo quando eu contasse um, dois, três e já.  Mas que eu ia o deixar chegar a uns quinze metros de nós.  E foi assim. A 1903 deu fogo na mesma hora e o Zé Vicente entregou, naquele momento, sua alma ao Demo.  “

-Vejo, Cabo Paulino, que o Senhor teve muito sangue frio para enfrentar aquela fera. Soube que aqui em Serrana o pessoal até tremia quando o encontrava numa rua ou nas vendas.  É verdade que ele mandava uma coroa de flores para quem matava e que, às vezes, ia visitar sua vítima no velório?

–          Eu soube que sim, meu camarada.  E ninguém da família da vítima dava  um pio.

Naquele momento, o Expresso apitou na  Ponte da Água Limpa.  Era o sinal  de que estava chegando .  Latas de leite, engradados com galinhas eram empurrados aqui e ali para o embarque no vagão de cargas.  Os praças foram se despedindo do Cabo Paulino com  um abraço no velho soldado e procurando o vagão de segunda classe.   Cabo Paulino foi andando pela plataforma, olhando se encontrava mais algum conhecido.  Ao badalar do sino da Estação, a velha maria-fumaça deu um apito agudo e longo partindo novamente em direção ao seu destino. Cabo Paulino retomou o caminho de sua casa.  Passou pela Praça da Matriz, mas não parou em nenhum grupo de homens que conversavam sobre as novidades da cidade ou sobre as moças que haviam  caído  na vida e moravam, agora, na Esquina do Pecado.  Ele era uma companhia meio temida nestas rodas porque conhecia a história de muitos ricaços e como eles haviam feito fortuna.  Não era raro, quando algum descendente de fazendeiros ou comerciantes enaltecia o trabalho do parente, ele interferir meio irônico e perguntando : “Não é o Silveira da Ponte Coberta ?  Eu conheço muito bem.  Seu avô esteve” na minha chave”. Roubava gado e cavalo nas fazendas do Divino de Ubá.  “ As verdades irrefutáveis que jogava no grupo tinham o efeito de uma bomba. E  logo os homens, sorrindo amarelo, saíam de fininho, cada um alegando ir cuidar disto ou daquilo.  Cabo Paulino retomava a  rua do Barreirinho na sua volta para a solidão da sua casa de pau-a- pique.  Quando via luz acesa na casa da Dona Alzira, casada com o seu sobrinho José, ele batia na porta com o cabo do guarda-sol pretextando uma visita.   Nessas noites, sua solidão era menor.  Tomava assento numa cadeira de palhinha e conversava com Dona Alzira, seu sobrinho e a empregada Maria, uma boa hora e meia.  A dona da casa era solícita e estimulava o cabo a falar sobre sua vida, seus vizinhos e se não ia mesmo casar. Dona Alzira era mestra em indicar esta ou aquela viúva que seria para ele uma boa companheira. Solteirão convicto, Cabo Paulino declinava da oferta e acrescentava  : “Dona Alzira, quero viver mais um pouco e mulher, na minha idade, só faz mal. Meu tempo já passou.” Quando percebia que seu sobrinho José bocejava e Maria cochilava, ele ia se despedindo e recomeçando a caminhada para sua casa.

No dia seguinte, Maria, como fazia todas as tardes, foi chegando à janela para ver o Cabo Paulino passar.  Deram cinco horas e ele não passou.  Comentou  : “Uai, cabo Paulino tá atrasado hoje.  O que terá acontecido, Dona Alzira ?  Ele nunca se atrasa!” As duas mulheres foram ficando incomodadas com o inusitado fato.  Dona Alzira resolveu pedir então ao esposo José, sobrinho de Paulino, que desse uma chegada até à casa do mesmo. Chegando lá, José estranhou que todas as janelas estivessem fechadas e resolveu, primeiro, bater na porta, e, em seguida gritar:  “Paulino, oh Paulino!”   A vizinha chegou à janela e informou que hoje ela não havia visto o Cabo e não percebera nenhum movimento no terreiro. Ele sempre saía de manhã para dar milho às galinhas.

José resolveu arrombar a porta que logo cedeu,  pois era fechada apenas por uma tramela. Entrando, foi direto ao quarto e ali encontrou seu tio estendido na cama, com as mãos sobre o peito, segurando um terço.  No momento, entendeu que ele havia falecido durante a noite, provavelmente, vítima de uma síncope cardíaca.  Não sabia que ele tinha aquele terço, pois sempre criticara os padres e  freiras a quem apelidara de “esporas de Cristo”, e não de esposas, como elas se autodenominavam. Resolveu puxar uma cadeira e ficar um pouco ao lado do tio.  Sua face era de alguém que encontrara a paz e um leve sorriso desenhava-se nos seus lábios.  José, na sua dureza característica, fez no coração uma curta prece:

“Cristo, ele foi um bom homem. É preciso dizer mais?”  Duas lágrimas correram pela sua face  e pingaram no assoalho.  Cobriu, até o rosto, o corpo do seu tio e ficou um pouco mais, sem nada pensar, apenas olhando as paredes e a pobreza daquele quarto. Levantou-se e, pé ante pé, foi saindo para providenciar o enterro.

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